Outubro de 2010, eu passava os dias com a perna direita para cima, ainda engessada depois de uma cirurgia para a inserção de uma placa de platina e seis parafusos para corrigir uma fratura na fíbula. Era a primeira lesão mais grave depois de cinco anos de futebol americano. Sim, um esporte “violento”, mas uma fratura comum até para os que chutam a bola redonda, em um dos ossos mais fracos do tornozelo. Apesar de estar ciente de uma plena recuperação em poucos meses, basta uma brecha para que questionamentos mostrem a cara.
Afinal, todo o prazer proporcionado pela prática esportiva não era páreo para a dor e as dificuldades de locomoção com um afiado par de muletas, as axilas que o digam. Ou seja, uma receita fácil para sentir pena de si mesmo e unir a convalescência com a falta de vontade para tudo. Um esporte amador, que só me trazia custos, agora cobrava um preço um pouco mais alto. Nada que superasse o amor e a vontade de, um dia, recomeçar, no entanto.
Durante uma tarde de trabalho em casa, TwitDeck ligado, os colegas da imprensa americana noticiavam um acidente durante um jogo da liga universitária americana. O atleta Eric LeGrand, da defesa dos Scarlet Knights, da Universidade de Rutgers, machucou o pescoço durante um lance e havia sido hospitalizado, aparentemente paralisado. Imediatamente, por curiosidade, segui os links para as notícias, uma delas acompanhada do vídeo da jogada.
Talvez não tão impactante para um espectador comum, mas para mim, a pior cena que já vi. Na tentativa de derrubar um adversário, LeGrand faz exatamente o contrário do que é ensinado para qualquer atleta da modalidade, e inicia o contato no corpo do oponente com sua cabeça. O camisa 52 cai de costas no gramado, com seus quatro membros enrijecidos, em um sinal claro de paralisia corporal. Nos segundos seguintes, as pernas e os braços, simultânea e lentamente, cedem à força da gravidade e se acomodam no gramado. Depois, é possível ver o desespero de LeGrand, que movimenta a cabeça insistentemente, mas o restante do corpo parece não corresponder.
Até hoje sinto na boca o mesmo amargo que me acometeu assim que vi a cena. Imagens fortes e negativamente emocionantes, que estragaram vários dos meus próximos dias. De alguma forma, eu compartilhava daquela dor, conseguia me colocar em seu lugar. Mas ao mesmo tempo me sentia um lixo por ter lamentado a minha simples lesão. Um choque de realidade com a situação de alguém encaminhado para se tornar um jogador profissional, sonho da maioria dos garotos americanos – e também de alguns brasileiros perdidos por aqui – que acabava em uma fatalidade.
Nos dias seguintes, a Universidade de Rutgers abriu um canal de comunicação entre os fãs e LeGrand, para que enviassem mensagens de apoio. E para aquilo dediquei tempo, em um sincero voto de melhoras, que talvez jamais chegasse ao destinatário, mas que me ajudaria a amenizar um pouco daquela angústia. Fiz questão de mostrar que a corrente de orações e pensamentos positivos era grande, e se estendia até um longínquo país do sul do mundo.
O atleta foi diagnosticado com paralisia total dos membros superiores e inferiores devido a uma lesão cervical, e respirou com ajuda de aparelhos por algumas semanas. De 2010 para cá, Eric LeGrand tem mostrado uma excelente recuperação. Já consegue movimentar levemente os ombros, sente estímulos nas pernas e se locomove com uma cadeira de rodas adaptada. É extremamente ativo no Twitter, retomou os estudos e persegue o sonho de se tornar um comentarista esportivo. No final do ano passado, foi responsável por liderar a entrada dos seu companheiros Scarlet Knights em campo no último jogo da temporada. Cena imortalizada pelas lentes dos fotógrafos da revista “Sports Illustrated” e que posteriormente foi escolhida como a foto do ano.
Todo mês de abril a NFL, a grande liga do futebol americano, seleciona jogadores que estão se formando na faculdade para tornarem-se profissionais. E em 2012 seria a vez de Eric LeGrand. Fato que não saiu da memória de Greg Schiano, treinador do Tampa Bay Buccaneers e ex-técnico de LeGrand em Rutgers. E depois das inúmeras contratações das futuras estrelas do principal esporte americano, a notícia que comoveu toda uma nação. No dia 2 de maio, os Buccaneers usaram a última vaga disponível no elenco e anunciaram a contratação do defensive tackle Eric LeGrand.
Um gesto simples para uma organização do tamanho de um time da NFL, mas capaz de arrancar lágrimas dos que acompanharam toda a história mundo afora. LeGrand terá uma função administrativa, já que, apesar da projeção de voltar a caminhar no futuro, jamais jogará futebol americano novamente. O time ofereceu um contrato vitalício ao ex-atleta, e afirmou que o espírito lutador do rapaz é exatamente o que a equipe procura em seus componentes.
A contratação do ano, dizem os especialistas no esporte. Fãs podem encontrar a camisa número 52 do Tampa Bay Buccaneers, com o nome LeGrand na parte de trás. E Eric, apesar de ter todo o seu futuro virado de ponta-cabeça em uma fração de segundos, agora vive o sonho de fazer parte do dia a dia de uma equipe profissional de futebol americano. E assim como todas as estrelas do esporte, terá a possibilidade de incentivar e dar inspiração àqueles que se encontram em situação semelhante. Parece coisa de filme. Que bom que não é.



















