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As montanhas da Grande Besta

As montanhas da Grande Besta

07/10/2013

Os dois cavalheiros já haviam passado de seus limites. Com os equipamentos modernos de hoje, a situação já seria difícil o suficiente: 6.500 metros de altitude, terreno extremamente íngreme e instável, um ambiente gelado e varrido por rajadas de vento e neve suspensa, com ocasionais avalanches capazes de levar qualquer coisa consigo deslizando por precipícios intermináveis. Mas em 1902, ter chegado àquele ponto do Chhogori era um feito altamente admirável. Mesmo exausto, o líder queria mais, e ordenou que seu parceiro de escalada o seguisse. Ele se recusou. O britânico insistiu, gritando impacientemente, tentando ser ouvido na tormenta, mas o outro entendeu bem, mesmo sem escutar uma palavra sequer, e mesmo assim, deu de costas. Foi então que aquele que gostava de ser chamado de "A Besta 666" fez jus ao título: sacou uma pistola e obrigou seu convalescente companheiro a ascender na montanha até perto de seu pico.

Essa anedota foi propagada pelos círculos sociais de Londres por anos, talvez uma cortesia do Clube Alpino, uma sociedade de cavalheiros da alta classe britânica empenhada em levar seus membros a escalar montanhas no mundo todo. O Império Britânico tinha tentáculos espalhados pelos quatro cantos do planeta, e a exploração era levada a sério pelos endinheirados. O grupo detestava Aleister Crowley por diversas razões: além de abominar suas conhecidas perversões sexuais, experimentos místicos e desdém por qualquer tipo de autoridade ou bom senso, era um dos mais destemidos escaladores de seu tempo, que rejeitava veementemente a ajuda de guias locais ou vias fáceis em suas empreitadas.

Nas horas vagas, Aleister Crowley gostava de posar de bruxo.

Apesar de desprezar organizações daquela natureza, foi membro do Clube Alpino Escocês, onde não durou muito tempo. Contudo, era respeitado por sua coragem. Um famoso montanhista teria dito: "Um bom escalador, ainda que nada convencional".

Se você já ouviu falar em Aleister Crowley, provavelmente foi por causa de Raul Seixas e seu amigo Paulo Coelho, que incluíram em Sociedade Alternativa sua Lei de Thelema: "Faz o que tu queres, pois é tudo da Lei". Ou por causa de roqueiros dos anos 70 como o guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page, que tinha verdadeira obsessão por Aleister e chegou a comprar Boleskine, o castelo supostamente mal assombrado nas margens do lago Ness, na Escócia, onde Crowley viveu por algum tempo. O mago também figura na capa do Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band, o disco revolucionário dos Beatles. Poucos sabem que o bruxo hedonista, intitulado de "O homem mais perverso do mundo" por um jornal sensacionalista, fundador de ordens obscurantistas que chocou a sociedade britânica com seus costumes nada ortodoxos, foi também um pioneiro do montanhismo moderno.

Consta que depois da morte do pai, o jovem Aleister não se sentiria mais inclinado a fazer parte do sistema opressor da sociedade vitoriana do final do século 19, e buscou refúgio na natureza. Na adolescência, começou a escalar as falésias calcárias de Beachy Head, na costa meridional da Grã Bretanha. Seu estilo se beneficiou muito das adversidades que aquela rocha quebradiça impunha, e logo estava fazendo bonito no Lake District, berço da escalada britânica, no noroeste da Inglaterra. Foi lá que conheceu e ganhou a admiração de Oscar Eckenstein, uma lenda do alpinismo mundial que já era um veterano das explorações de alta montanha do Himalaia.

Falésias de Beachy Head, costa sul da Inglaterra: Aleister Crowley começou aqui.

É possível que Crowley tenha posteriormente assimilado um pouco da excentricidade de Oscar, que perambulava por Londres usando sandálias de couro, mesmo quando estava frio e nevando, e mantinha uma barba comprida e selvagem numa época em que cavalheiros barbudos deveriam ao menos mantê-las civilizadas. Juntos, os dois foram pioneiros do bouldering*, e o jovem escalador ajudou Eckenstein a desenvolver os crampons, peças de ferro afixadas nas botas que aumentam a aderência do escalador ao gelo. Essa inclusive foi uma das razões que levaram o Clube Alpino de Londres a odiar a dupla: considerava o aparato trapaça pura, bem como as piquetas mais curtas de gelo que Eckenstein inventou. Era a época em que se esperava que o gentleman de montanha cavasse degraus no gelo durante a ascensão em glaciares, nada menos prático e seguro.

Em 1898, Crowley e Eckenstein começaram a escalar juntos várias montanhas dos Alpes, sempre rejeitando guias locais e amenidades, embora Aleister sempre fizesse questão de levar consigo uma pequena, mas pesada, biblioteca particular. Anos depois, durante a primeira expedição de escalada do Chhogori, hoje conhecido como K2, ele se indisporia com outros membros da equipe por causa dos livros. "Como poderia estar aqui sem meu Milton?", teria dito, referindo-se ao autor John Milton, que escreveu no século 17 uma obra poética sobre a queda de Lúcifer do Paraíso.

Mas antes de se aventurar no K2, a dupla passou uma temporada escalando vulcões no México para se preparar. Lá, Crowley teria batido um recorde mundial que nunca foi comprovado: uma subida de 1.200 metros no Iztacchihautl a partir dos 4.800 de altitude em apenas uma hora e 23 minutos. Na mesma expedição, quase alcançaram a cratera de outro vulcão ativo, o Colima, mas tiveram que desistir quando notaram que suas botas estavam literalmente derretendo em seus pés por causa do calor emanado pelas pedras.

Na famosa primeira escalada do K2, de 1902, Crowley descobriu ser dotado de muita resistência para as altitudes. Seu espírito obervador também o fez salvar um membro da equipe, ao concluir que a única maneira de se curar a forma aguda do mal da montanha que o acometia, um edema pulmonar, era levá-lo para altitudes mais baixas. O consenso no montanhismo da época era tratar o enfermo da mesma forma que se trataria um caso de pneumonia. Estabelecidos a 6.100 metros, o grupo internacional de seis escaladores começou a discutir sobre a rota pela qual ascenderiam ao cume, a 8.611 metros. Castigados por um clima extremo, a expedição teve que desistir, e foi um pouco antes que aconteceu o episódio que viraria a anedota do começo desse texto. Febril e delirante por causa de resquícios de uma malária que contraíra, Crowley acreditou que Guy Knowles, seu parceiro de barraca, queria matá-lo, e apontou uma pistola contra ele. Knowles revidou com um chute e tudo acabou por ali, mas foi o suficiente para o nascimento de uma fofoca duradoura.  

Primeira expedição ao K2, de 1902. Confusões, tempo ruim e uma biblioteca particular.

Aleister Crowley e Oscar Eckenstein se lançavam a desafios em paredes verticais que surpreendiam seus pares. O Clube Alpino de Londres, por exemplo, valorizava mais caminhadas em ambientes vertiginosos e íngremes do que escaladas mais técnicas, e esse fato certamente contribuiu para que Aleister fosse persona non grata entre os montanhistas britânicos. É claro que o fato de ser um ocultista libertino com fama de satanista, que pregava o sexo livre, o uso recreativo de drogas e a liberdade pessoal também ajudaram um pouco. O fato é que as altitudes e seus mistérios inspiraram decisivamente a vida desse que é um dos personagens mais emblemáticos e pouco compreendidos do século 20.

*Bouldering: modalidade da escalada em rocha praticada sem o uso dos equipamentos de segurança, como cordas e mosquetões, em pequenos blocos de pedras, geralmente com altura não superior a 6 metros.